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08, Abr - 2019

O incrível balé das bailarinas cegas

“Um, dois, três, pula, quatro. Olha o copo d’água na cabeça! Não deixem ele cair! Estica mais esta perna!”. Os comandos da professora de balé Fernanda Bianchini, 38, davam o tom dos passos finais para a apresentação de fim de ano da turma infantil da escola que leva o seu nome, na Vila Mariana, em São Paulo. “Abaixa os ombros! Sorriso no rosto!”, repetia, ao som de uma animada música clássica. “Verônica, hoje à tarde virão os príncipes e as cinderelinhas. Vamos fazer o ensaio completo, tá?", disse Fernanda para Verônica Batista, 28. “Tudo bem”, respondeu a aluna e também professora na escola, enquanto se alongava antes do ensaio começar.

 

A apresentação final seria em dois dias. Depois disso, algumas turmas seriam suspensas para as férias, outras ainda teriam algumas poucas aulas antes do Natal. Logo após as crianças, começaria o ensaio das adultas, que encarariam uma série de repetidas apresentações de balé clássico, seguidas de sapateado. Muitas das alunas passariam aquele dia inteiro na escola.

 

As aulas de dança da turma de bailarinas de Verônica, todas na faixa dos 30 anos, é assistida por um aluno especial: Duke, um pastor alemão adulto. Passa horas no canto da sala, posicionado abaixo da barra, acompanhando com os olhos vidrados a cada rodopiada que sua dona, Marina Guimarães, 31, dá de costas para o espelho. Duke é um cão-guia e já está acostumado com o ambiente. “Vou tomar um café, Duke, você fica aqui?”, disse Marina ao cão, que levantou-se no mesmo instante e postou-se prontamente ao lado da bailarina, acompanhando-a até a pequena cozinha da escola. Marina, que é também funcionária pública, nasceu prematura e perdeu a visão quando teve sua retina queimada ainda na incubadora. Assim como ela, grande parte dos alunos da escola não enxerga nada ou quase nada.

 

Marina faz aulas de balé desde os 10 anos de idade, quando começou a aprender a dança na ONG Instituto de Cegos Padre Chico. Ali, ela conheceu Fernanda Bianchini, que fazia trabalho voluntário com a família na instituição. “Eu fazia balé desde os três anos de idade. Quando estava com 15, fui convidada pela ONG, onde eu já era voluntária, para dar aulas às crianças que eram assistidas pelo local”, conta Fernanda. Quando recebeu o convite, titubeou. “Achei que eu não conseguiria, nunca tinha dado aula antes, ainda mais para crianças tão especiais”.

 

A bailarina e professora, e hoje também fisioterapeuta, lembra que, na época, os pais lhe deram um conselho valioso. “Eles me disseram ‘filha, nunca diga não para um desafio, pois são sempre desses desafios que partem os maiores ensinamentos que temos nas nossas vidas”. Com isso em mente, Fernanda decidiu aceitar o convite. “Mas não foi simples”, lembra. “No primeiro dia de aula, fui ensinar o primeiro passo o echappé sauté, que a bailarina tem que saltar abrindo as pernas e saltar de novo fechando as pernas. E pra ficar mais fácil o processo de ensino e aprendizagem, eu disse a elas: imaginem que vocês estão saltando fora de um balde e depois dentro de um balde”, recorda-se a professora. “Aí, para a minha surpresa, uma aluna levantou a mão e disse ‘tia, mas o que é um balde? Eu nunca vi”. Neste momento, Fernanda percebeu que tinha que primeiro entrar no universo dos deficientes visuais, para só então apresentar o seu mundo, do balé clássico, para eles.

 

Das aulas na ONG, Fernanda abriu sua própria escola, em 1995. Hoje, 350 alunos aprendem balé, sapateado, dança do ventre e teatro. A maioria, assim como Marina Guimarães, a dona de Duke, portadores de deficiência visual completa ou parcial. As aulas são gratuitas e por isso, a escola, que também recebe deficientes físicos, auditivos e intelectuais, é mantida por doações de empresas e pessoas que acreditam no projeto. "Temos mais de 100 pessoas na nossa lista de espera", orgulha-se Fernanda. “As pessoas não percebem que a deficiência pode entrar na vida de qualquer um a qualquer momento”.

 

(Fonte: El País Brasil)

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