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20, Out - 2015

Ballet sem Estresse

Você já ouviu falar da Psicologia da Dança?

 

Confira a entrevista exclusiva com a psicóloga Maria Cristina Lopes, profissional  focada  na psicologia cognitivo-comportamental da dança, do esporte e do comportamento alimentar.

 

Neste bate-papo, você vai descobrir como a Psicologia pode melhorar o desempenho do bailarino, como trabalhar a relação entre pais e filhos, aprender técnicas para combater a ansiedade e muito mais!

 

Maria Cristina, você desenvolve um trabalho voltado para a Psicologia da Dança. Como e por qual motivo você passou a trabalhar nesta área?

Primeiramente, agradeço muito a oportunidade de poder falar sobre essa área tão linda, que é a Psicologia da Dança! Comecei a trabalhar com performance e melhora de rendimento no esporte, especificamente com vôlei e boxe inglês. Logo me apaixonei por melhora de performance em esportes individuais. E minha vontade de ajudar pessoas a melhorar sua performance me levou à dança. Procurei escolas e companhias e me encantei pelo trabalho do Conservatório Brasileiro de Dança, no qual trabalho até hoje. O que me trouxe à dança foi a preocupação com a performance. Mas a dança não é só isso. O que me encantou na dança foi a arte e a ciência por trás do movimento. A dança é capaz de expressar emoção e história por meio da ciência do movimento. Então, foi há três anos que comecei a unir saberes de outras áreas da Psicologia para algo mais atual e que conversasse bem com dançarinos: a Psicologia da Dança. Este ano, decidi que era o momento de espalhar o conhecimento pelo mundo, para que mais bailarinos, professores e pais pudessem se beneficiar dele.

 

No que consiste a Psicologia da Dança e quais seus benefícios? Como a Psicologia e a dança se relacionam entre si?

A psicologia da dança tem por objetivo compreender e lidar com os fatores psíquicos que interferem na dança. Ela pode estar presente em diversos espaços. Pode ser estudada em universidades. Ela pode auxiliar pais, alunos e professores em escolas de dança, em questões escolares e de aprendizagem. Também pode beneficiar companhias, diretores e bailarinos a terem um espetáculo melhor, dançarinos com um bem-estar emocional mais elevado, motivados e com uma performance otimizada, melhorando o recrutamento de bailarinos e auxiliando em decisões estratégicas para a companhia e em relação à criação de plateia. Também pode ser promotora de saúde e desenvolvimento em projetos sociais. Gosto de resumir os benefícios assim: promoção de saúde psíquica para bailarinos, espectadores, integrantes de companhias, escolas e projetos. A dança no mundo ainda não foi explorada na sua ampla riqueza. A psicologia – a ciência do desenvolvimento – pode ajudar a dança a alcançar novos espaços subjetivos. E a dança se mostra cada vez mais como promotora de saúde, auxiliando também os objetivos da psicologia. Como não imaginá-las juntas?

 


http://mariadoval.wordpress.com/
 

 

Fale mais sobre o seu trabalho. Que atividades você desenvolve com escolas de dança e com os bailarinos, individualmente?

Nas escolas de dança, é feito um trabalho de treinamento de professores, sobre: aprendizagem, desenvolvimento humano, comportamento, gerenciamento de aula (como fazer a aula fluir bem) e diálogo professor-pais-escola. O psicólogo também promove o diálogo entre os pais e a escola, ouvindo os pais e buscando transformar este ambiente em um espaço de desenvolvimento para os alunos. Com os bailarinos, é feito um trabalho individual, de grupo e com seus professores. É preciso ouvir o professor, porque ele conhece bem o estilo do bailarino – motivações, angústias, medos. Busco interagir com o professor, para que ele também esteja munido de informações no momento em que vai conversar com o aluno sobre a aula ou profissão. Com o grupo, são feitas palestras; ou, quando o grupo já se conhece bem, são promovidas conversas mais informais, para discutirmos questões como motivadores, autoestima, sonhos e outras mais. O trabalho individual já é bem mais profundo. O que buscamos é conhecer os pensamentos e as atitudes do bailarino frente à dança e buscar adequá-los da melhor maneira possível. Também é feito um trabalho de psicoeducação. Basicamente, conversamos muito sobre como mente, cérebro e comportamento funcionam, para que ele também possa ter mais um poder de decisão sobre as próprias ações.

Meu projeto para o futuro é levar este trabalho individual que faço com os bailarinos para todos os jovens do Brasil. Quero fazer algo em larga escala, para que todos possam se beneficiar da psicologia da dança. Desconheço companhias no mundo – mesmo as grandes –que tenham um psicólogo em tempo integral. E desconheço projetos ambiciosos para que muitos bailarinos tenham melhores performances. Quero que os bailarinos do Brasil sejam os primeiros a ter este projeto e que sejamos referência na área de desenvolvimento de bailarinos – em todas as áreas. Quero também que os bailarinos sejam mais autônomos e ambiciosos. Esse é o primeiro passo para conseguirmos mais contratos e patrocínios. Vejo muitos bailarinos que só querem dançar bem em alguma companhia, mas acabam desistindo de seus sonhos. O que todos querem no fundo é dançar melhor e para sempre. E eu quero mostrar para eles que é possível dançar melhor, ser mais autônomo e buscar suas oportunidades.

 


Encontrado em mariadoval.wordpress.com

 

Como você trabalha com bailarinos que sofrem muito de ansiedade e cobrança excessiva de si próprios? Como lidar com sintomas de estresse e ansiedade exacerbados, antes de um espetáculo, por exemplo?

A cobrança excessiva é muito comum em bailarinos. São eternos “buscadores” da perfeição. Mas este tiro acaba saindo pela culatra. Aparecem sintomas de ansiedade e estresse não apenas cognitivos (de pensamento, atenção e memória), mas também fisiológicos, como sudorese, falta de ar, calafrio, entre muitos outros. Para lidar com esta questão, é preciso um trabalho longo, porque precisamos investigar de onde vem essa cobrança excessiva. Mas o fato é que muitas vezes por conta disso os bailarinos deixam de fazer uma aula tão boa por medo de errar, acabam não saindo tão bem no palco - seja em relação à técnica ou à expressão - ficam com um medo excessivo de lesões, etc. Esses sintomas precisam ser olhados com cuidado por um psicólogo capacitado. Se este trabalho já foi feito por mim, antes de um espetáculo reviso com o bailarino as questões mais importantes que já foram trabalhadas, se há no momento algum pensamento disfuncional e as estratégias que ele está utilizando para lidar com elas, os comportamentos mais adequados a ter na coxia – aquele momento de maior tensão. E técnicas de respiração que são muito eficazes em momentos de muita ansiedade.

 


http://positivemed.com/2014/03/27/overcome-shyness-social-anxiety/

 

Hoje em dia, as crianças realizam, desde cedo, diversas atividades, tendo pouco tempo até mesmo para o lazer e para curtir a família. Há, também, uma cobrança dos pais por resultados. Que orientação você dá aos pais de bailarinos?

O termo “gerenciamento de tempo” já é bem conhecido no mundo corporativo. Mas englobam técnicas que precisam ser conhecidas por todos nós. Organização e equilíbrio ditam o que os pais deveriam buscar. Escola, sono, dança e lazer são coisas que podem existir conjuntamente – por mais difícil que possa parecer. Nenhum deve ser descartado. Lembrando aos pais: com brincadeiras, as crianças podem ter um grande desenvolvimento psicomotor. Devemos também dividir o tempo de lazer em dois: com os pais e com os amigos. As crianças precisam deste tempo de lazer com os pais – são eles que vão estar sempre ali e é preciso criar um laço positivo e de confiança. Seu filho precisa saber que você está lá para ele e que quer passar um tempo de qualidade com ele. Muitos pais que não se interessam muito pela dança acabam tirando seus filhos da atividade por não saber gerenciar o tempo. E muitos pais acabam se afogando no universo da dança junto do filho também. Lembrem-se: são os pais quem organizam as atividades e a rotina. Se seu filho gosta muito de dança e nada mais é oferecido, o mais provável é que ele dance o dia inteiro. Mas, quando se senta com as crianças e se propõe uma atividade prazerosa em conjunto, é possível investir em outras formas de desenvolvimento. Em relação aos resultados na dança, é preciso que os pais compreendam que esta é uma atividade extra e que por si só já desenvolve o aspecto psicomotor da criança – o que ajuda muito na aprendizagem escolar e outras questões – o que já faz a dança valer a pena. Na verdade, muitas atividades que não tem um resultado concreto imediato – ou resultado concreto algum (como algumas atividades de lazer) – valem a pena.

Ainda, o desenvolvimento deve ser respeitado. Os pais não devem cobrar da escola ou da criança algo tão individual e delicado. É preciso promover em vez de cobrar. O pai deve se preocupar em casos em que a criança está com alguma emoção negativa forte em relação às aulas. Mas, na maioria dos casos, os pais acabam cobrando excessivamente e apenas dificultam o progresso de seus filhos. 

 

Que recado você deixa a nossos leitores e leitoras que sonham em ser grandes bailarinos um dia?

Muitos bailarinos têm sonhos grandes. É preciso, primeiro, qualificar-se e acreditar na sua capacidade de realizar. Muitas vezes, essa habilidade de acreditar em si mesmo se perde pelo caminho. Uma coisa que sempre digo para os bailarinos é: invista em você! Você precisa se sentir bem e bonito. Bailarinas sabem: muitas vezes, uma saia não é apenas uma saia – principalmente para a hora do ensaio. Outro recado: seus professores são realmente seus mestres. Eles investirão tempo e dedicação a você, se você demonstrar que realmente está disposto a se esforçar muito para chegar lá. Depois de investir no seu bem-estar e na sua relação com seu professor, é preciso saber que é possível se superar. Eu, por exemplo, estudo técnicas para que você consiga ir além do que você já foi até aqui. Mas o primeiro passo para mudar é saber que depende de você. A vida, o futuro, a carreira: é preciso se responsabilizar por tudo isso e estar disposto a pedir ajuda quando precisar. Um pedido de ajuda mostra apenas que você quer chegar a outro lugar. Não deixem de sonhar. Não deixem de acreditar.

 

 

MAIS INFORMAÇÕES - Maria Cristina Lopes

Formação: Psicóloga pela PUC-Rio, formação em psicologia do esporte, atualização em psicologia cognitivo comportamental pela Santa Casa de Misericórdia e neurociência e Terapia cognitivo comportamental pela UFRJ.

Contato: 21 993053432/ cristina@mariacristinalopes.com

Site: http://www.mariacristinalopes.com/

Facebook:  https://www.facebook.com/balletsemestresse

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